Category Archives: Cultura

Das peculiaridades da cultura holandesa

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– Aniversariante tem que levar bolo pra escola, pro trabalho, etc. Logo, não dá pra fazer dieta porque sempre é o aniversário de alguém. Aliás, aniversários holandeses são bizarros: vc chega, dá parabens (gefeliciteerd) pra todos os convidados sentados – tipo um “parabéns pelo aniversário do seu amigo, namorado, parente” –, come bolo e toma café e depois passa horas sentado numa roda conversando e comendo salgadinhos e aperitivos do tipo;

– Papais e mamães têm que oferecer “beschuit met muisjes” (uma torrada com um granulado de anis colorido em cima) quando seus bebês nascem. Os “muisjes” têm que ser azul quando o bebê é um menino e rosa quando é menina;

– Sol e calor são motivos para cancelar um compromisso. Chuva e frio não;

– Acho que metade da populacao tem a tarde da sexta-feira livre do trabalho;

– Mães geralmente trabalham 3 or 4 dias por semana para ter mais tempo de cuidar dos seus rebentos;

– Na Alemanha é “Sie” (o senhor, senhora) pra cá, “Sie” pra lá. Na Holanda é todo mundo “jij” (voce) logo de caro. Adoro a informalidade dos holandeses;

– Holandês come pão e toma leite (puro) no almoço. Não sei se algum dia vou conseguir me adaptar. 3 dias seguidos de pão no almoço foi o máximo que consegui aguentar até agora. Aliás, comer pão com manteiga e chocolate granulado é super normal no café da manhã e meus colegas comem no almoço também todo santo dia. Também há combinações do tipo creme de amendoim e chocolate granulado.

Uma ponte entre a Holanda e o Brasil

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Vestindo camisa social e calças pretas o cantor e compositor brasileiro Lenine entra no palco já cantando. Num instante, a voz calorosa do pernambucano transporta a antiga sala de cinema da fria e chuvosa Rotterdam para o ensolarado Recife. O público, até então calado e comportado em suas poltronas, grita, bate palmas, assobia.  A formalidade holandesa dá espaço à espontaneidade brasileira.

Da minha poltrona eu aplaudo o mesmo homem que duas horas antes ensinava os músicos holandeses, noruegueses, dinamarqueses e alemães da orquestra do holandês Martin Fondse a pronunciar as palavras “dólares” e “Dolores”, da música Rosebud. O mesmo cantor que, vestindo jeans, óculos e all-star pretos, vibrava ao ouvir cada arranjo novo que a orquestra internacional tinha criado especialmente para as suas músicas. O mesmo simpático pernambucano que no primeiro intervalo da passagem de som desceu do palco pra nos dar um abraço de boas vindas e saber se estávamos nos divertindo.

Testemunhar o projeto “The Bridge” tomando forma durante a passagem de som e assistir ao primeiro show do Lenine com o Martin Fondse e sua orquestra foi uma experiência indescritível. Minha admiração pelo trabalho do artista pernambucano, que completa 30 anos de carreira esse ano, só aumentou. Sua paixão pela música, o sentimento que ele imprime em cada nota e o alto-astral que ele transmite são emocionantes.

Quanto ao trabalho do Martin Fondse, foi paixão à primeira vista. Músico e maestro talentosíssimo, além de muito simpático  e atencioso. Um “querido” mesmo!

E a tarde e noite da última sexta-feira foram assim: cheias de novas experiências e energia positiva. Uma delícia!

Doe het zelf

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Eu nunca reparei se alemães também são assim, mas holandês é chegado a um “doe het zelf” (faça você mesmo).

Como mão-de-obra aqui é cara, muita gente arregaça as mangas nas horas vagas e reforma suas próprias casas. Eles encaram de tudo: reformam banheiros e cozinhas, trocam pisos, pintam paredes, penduram lustres, trocam torneiras, etc.. Os móveis, claro, também são quase sempre da IKEA: bonitos, baratos, mas que precisam ser montados pelo próprio consumidor em casa com a ajuda de um manual de montagem. Nada de entrega  e montagem gratuitas. Se as novas aquisições não couberem no seu carro, você tem que estar preparado pra pagar um frete bem salgado.

guarda-roupas

Até as portas do guarda-roupas vieram desmontadas: 8 placas de vidros e partes soltas de alumínio.

Na teoria, a filosofia “faça-você-mesmo” é bem romântica (e econômica também), mas na prática… haja paciência!

Compramos um guarda-roupas novo, um sofá-cama, uma estante de livros e uma escrivaninhas na IKEA. Tudo lindo – na loja. Achei que algumas partes, como gavetas, já viessem pré-montadas.  Ledo engano. Tudo, absolutamente tudo, tem que ser montado. Inclusive as gavetas.

Meu “namorido” é uma pessoa maravilhosa, mas tem o irritante hábito de postergar tudo o pode. Afinal, pra que fazer hoje o que você pode fazer na semana que vem, ou na outra? Ele não se incomoda com bagunça, coisas não terminadas, caixas pelo chão, soluções temporárias como roupas em malas e afins. Então que há 1 mês e meio estamos montando o guarda-roupas e ainda faltam os detalhes finais.

Eu passei uma tarde toda montando gavetas, vou encaixando os pregos e seguro as estruturas pra ele parafusar toda santa vez, mas tem coisas que o meu tamanho, somados a minha falta de habilidade, não permitem.

O sofá-cama, a estante de livros e a escrivaninha só foram montados depois de muita pressão (e com a minha ajuda) e os quadros, lustres e novos cestos de lixo (que devem ser instalados dentro do armário) estão todos na sala há quase 2 meses, esperando sua vez de serem pendurados e instalados.

Mas o highlight da casa é o banheiro. Assim como 90% dos holandeses (estimativa minha), namorido também resolveu se arriscar na profissão de pedreiro. Arrancou o vaso sanitário, a porta e os tijolos do banheiro, mudou a pia de posição, fez uma gambiarra pra tudo continuar funcionando e… nunca começou a reforma efetivamente. Há 2 anos o banheiro espera ser reformado e a pessoa tem que descer pro lavabo no meio da noite se quiser fazer xixi, pendurar um lençol no vão da porta pra tomar banho no inverno e ver a água da pia sendo “desovada” dentro do box do banho por meio de um cano improvisado. Já reclamei, já ameacei não vir mais pra cá, mas nada move a criatura. Procrastinação é a palavra de ordem por aqui.

banheiro

Pra provar que não é dramalhão meu.

Achei que isso fosse mal do “namorido”, até que descobri um programa na TV holandesa que se chama “Help, mijn man is klusser” (algo como: socorro, meu marido é um viciado em faça-você-mesmo). É gente que começou mil reformas em casa, nunca terminou e vive em situações temporárias eternas do tipo tomando banho na garagem. Até a hora que a esposa não aguenta mais e chama um programa de TV com uma equipe de pedreiros pra ajudar a terminar a reforma.

Com a minha falta de habilidade para o “doe het zelf”, não me resta alternativa a não ser esperar o “bonito” ter tempo e coragem pra terminar o guarda-roupa, furar as paredes e pendurar as coisas.

Pelo menos consegui convencê-lo a contratar pedreiros profissionais pra fazer a reforma do banheiro. Ele concordou meio que a contra-gosto, porque sabe que a brincadeira vai ficar cara. Mas ninguém mandou ele começar, não é?

E haja paciência!

Minha primeira experiência com o “Ramadã”

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Eu acho que eu já falei por aqui que, desde o primeiro dia do mestrado, minhas amigas mais próximas aqui em Bonn são a Ibtisam (egípcia), a Christine (queniana) e a Monika (polonesa). É claro que aprendo muito com todas elas e também com outros colegas e amigos queridos, mas a convivência com a Ibtisam – minha primeira e única amiga muçulmana – é realmente um aprendizado diário.

Desde o dia 21 de julho é Ramadã no mundo islâmico. Isso quer dizer que os muçulmanos, como a Ibtisam, observam um jejum (comida, bebida e sexo) entre o nascer e o pôr do sol. O jejum dura um mês inteiro e representa um ato de renovação da fé.  Ao final desse período, a comunidade islâmica celebra o Eid al-Fitr por 3 dias com banquetes e outras atividades religiosas. Mais sobre o assunto, aqui.

Após 4 semanas sem nos vermos, ontem nos reunimos – eu, Ibtisam, Monika, Christine e uma outra amiga, a Natalia (russa) – pra botar o papo em dia.

Primeiro nos encontramos só pra papear e depois eu, Ibtisam e Monika seguimos para um restaurante turco, onde havíamos feito uma reserva pras 9 da noite, quando o sol se põe por essas bandas de cá nessa época do ano e a Ibtisam finalmente pode fazer sua primeira (e única) refeição do dia, já que de manhã ela prefere dormir a acordar antes do nascer do sol pra comer.

Chegamos um pouco antes das 21h e o restaurante, que estava cheio, de repente lotou. Nas mesas, os pães e saladas permaneciam intocados. Todos à espera do pôr do sol e do Azan – o chamado da mesquita pra iniciar a oração (que foi, neste caso, feito artificialmente pelo restaurante).

Às 21h07, o Azan tocou e todos começaram por uma fruta seca que estava no meio da mesa. Ibtisam nos explicou que esse doce tem o intuito de quebrar o jejum devolvendo a energia ao corpo, que fica mais debilitado durante essa época.

Foi a primeira vez na vida que ouvi falar e vivenciei de perto o Ramadã e confesso, não sei se minha fé é grande o suficiente pra jejuar um dia inteiro, sem pestanejar.

Como escrevi num outro post, eu não tenho a menor intenção de mudar de religião, mas admiro os muçulmanos pelo compromisso com a sua própria fé.

The muslim version of me…

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Eu em versão muçulmana – Mesquita do Sultão Ahmed, Istambul – Turquia

Ainda vou escrever sobre a viagem pra Istambul, agora me me sinto um pouco mais organizada por dentro e aos poucos volto a escrever.

Por enquanto, fiquem com uma foto da visita à Mesquita do Sultão Ahmed, ou Mesquita Azul.

Ótimo domingo!

P.S.:  Só uma curiosidade: esse carpete tinha um cheiro de chulé fortíssimo, já que é proibido entrar de sapatos na mesquita e, por essa ser essencialmente turística, ninguém lava os pés ao tirar os sapatos, como nas mesquitas regulares.

Sobre casamentos arranjados

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Casamentos arranjados eram uma realidade muuuuuuito distante pra mim até pouco tempo atrás. Sempre escutei estórias sobre essa prática na Ásia e no Oriente Médio e sabia que isso também era comum no Brasil há muitos anos atrás, mas nunca imaginei conviver com pessoas para as quais esse tipo de união é perfeitamente normal.

A maioria dos meus novos amigos vêm da Ásia e do Oriente Médio. Casamentos arranjados são, portanto, uma prática comum na cultura deles. A ordem comum das coisas –  se apaixonar, namorar e, se tudo for bem, casar – não faz parte das expectativas e nem dos planos deles. O casamento nesses países é praticamente uma transação de negócios. 

Num jantar qualquer no ano passado, uma colega de Bangladesh disse que nunca se casaria com um cara que fosse menos qualificado do que ela e contou que trocar currículos (sim, o velho e bom CV) antes mesmo de conhecer o candidato pessoalmente é uma prática comum por lá. Ela tem 37 anos, é advogada e jornalista, fez mestrado e MBA na Alemanha e tem visto de residência permanente no país. Qual é a chance de ela encontrar um cara mais qualificado e mais velho que ela que ainda esteja solteiro em Bangladesh?

Meu amigo da Índia (27 anos) acredita que casamentos arranjados sejam mais seguros e menos complicados, porque não se cria tanta expectativa em relação ao parceiro. Você aceita o cônjuge como ele é e a união é pra vida inteira. O amor, bem… o amor nasce com o tempo, com a convivência.

Minha amiga do Egito está passando por uma situação dificílima agora, dividida entre a religião e o amor. Ela, muçulmana, está apaixonada por um alemão sem crença alguma. Na religião dela só é permitido namorar se a intenção for mesmo casar, o que nesse caso é um pouco mais complicado do que simplesmente noivar e fazer promessas de amor.

Homens muçulmanos podem casar-se com mulheres não-muçulmanas, contanto que elas pertençam a uma doutrina cristã (porque o islamismo também acredita no cristianismo). A recíproca, no entanto, não é verdadeira. Uma mulher muçulmana só pode se casar com homens que compartilhem da mesma crença, ou seja, se o cara não for muçulmano de nascença, ele tem que se converter. Não há meio termo.

Acontece que o islamismo não é só uma religião, é todo um estilo de vida, que inclui várias preces diárias, abdicação à bebida alcóolica, jejuns por longos períodos e etc. Então, o tal alemão está agora numa “sinuca de bico”: ou se converte ou pode esquecer o amor da vida dele.

Fato é que eu, que sou espírita, continuo duvidando que Deus exija que duas pessoas pertençam à mesma religião para compartilhar uma vida conjunta. Mas quem sou eu pra julgar a crença e a fé alheias? Então só me resta torcer pra que o camarada se converta e essa estória tenha um final feliz!

Desvendando o mundo árabe

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Hoje é aniversário de uma da minhas mais queridas amigas daqui. Ibtisam é egípcia, ex-jornalista da Agência Alemã de Notícias (dpa) e muçulmana. Com ela tenho aprendido a cada dia uma porção de coisas que eu totalmente ignorava sobre  os costumes, a política e, principalmente, a religião no mundo árabe. Ela é a primeira ámiga árabe e muçulmana que eu já tive na vida e tem sido uma delícia descobrir a região através dos olhos dela.

Ibtisam e eu em Brugge, Bélgica. 2011

Ibitsam estava no Egito durante as revoluções contra o regime Mubarak e é interessantíssimo conversar com ela sobre esse período e seus desdobramentos. Mesmo sendo muçulmana, ela é contrária à ideia de o partido islã governar o Egito. Ela argumenta que com tantos extremistas religiosos é perigoso permitir que um partido assumidamente muçulmano suba ao poder. “As pessoas precisam separar política de religião”, ela me disse quando conversamos sobre o assunto.

Viajamos juntas para a Bélgica há duas semanas e foi tocante ver sua relação com a fé. 5 vezes ao dia ela pára o que está fazendo para fazer suas preces. Quando passa o dia fora, as preces se acumulam e ela as faz de uma só vez. Sem titubear. Uma noite entrei no quarto e ela estava lavando os pés na pia. Eu ri. Ela riu também e me explicou que antes de rezar ela precisa lavar as mãos, a boca, o nariz, o rosto, os braços, as orelhas, a garganta, os cabelos (pode ser só jogar um pouquinho de água), os pés e novamente as mãos, exatamente nessa ordem.  Ela não se importa que outras pessoas fiquem no mesmo local e até conversem enquanto ela faz suas preces. Mas, por respeito, sempre acompanho em silêncio seu ato de fé e admiro.

Aos 31 anos, Ibitsam nunca teve um namorado e cobre seus cabelos e todo o seu corpo quando está entre homens. Vestir camisetas de manga comprida e lenço, mesmo em dias de muito calor, não é motivo para reclamação. Casamentos arranjados são vistos com naturalidade porque pra ela o amor é algo que se constrói e não precisa, necessariamente, existir desde o começo. Ela diz que se o sujeito for uma companhia agradável já é um bom começo. Nós duas rimos. Ela já recusou alguns “pretendentes” e confessa que sua família se preocupa com o fato de ela não ter arranjado um marido ainda.

Ontem, conversando sobre nossos planos de Natal, ela me disse que eles também acreditam em Jesus e em Maria, só têm uma perspectiva um pouco diferente. Fiquei espantada. Ela riu. Cada dia, uma lição.

Antes de conhecê-la, a primeira coisa que vinha a minha cabeça ao pensar em islamismo era, infelizmente e muito injustamente, o terrorismo. Conversando sobre homens muçulmanos durante a viagem brinquei que se eu aparecesse em casa dizendo que estava namorando um, provavelmente a primeira coisa que todo mundo ia pensar é que eu estou namorando um terrorista. Caímos na risada!

Nunca tinha parado pra pensar na possibilidade de me apaixonar por um muçulmano. Mas é preciso lembrar que há muitos deles em países da Ásia e da África e, vivendo num ambiente tão intercultural quanto esse, isso pode sim acontecer.

Realmente a gente sabe muito pouco sobre o mundo lá fora… e ainda há muito mais a aprender.

P.S.: Feliz Aniversário, liebe Ibtisam. Alles Gute und Liebe zu deinem ersten Geburtstag in Deutschland wünsche ich dir von ganzem Herzen! (Eu sei que ela vai tentar ler o post inteiro com ajuda do google-translator, então tô facilitando a última parte.hihi)