O dom de ser chato

Padrão

Você vai fazer uma prova oral baseada no seu trabalho de 13 páginas sobre fontes jornalísticas. Dois examinadores. Ambos alemães.

Examinador número 1, com aquele jeito todo acolhedor de avô (sim, ele tem mais de 70) e voz de locutor de rádio pergunta: Frau Silva, me diga quais são as principais fontes de informação para um jornalista.

Ele sorri ao ouvir a resposta que ele queria ouvir. Como um avô, verdadeiramente orgulhoso!

Mais umas perguntas camaradas e ele passa a palavra à próxima examinadora.

Examinadora número 2, cara fechada, tentando me fazer chorar: Frau Silva, falando sobre métodos de pesquisa, o que é uma pesquisa pendular e o que é uma puzzle research (algo como pesquisa quebra-cabeças)?

(Hello? O que isso tem a ver com o meu tema, bitte schön?) Respondo qualquer coisa óbvia sobre a tal puzzle research e torço pra ela esquecer do outro. Ele volta a perguntar. Eu assumo que não sei e ponto. Anotações.

Olho pra cara do examinador número 1, pedindo socorro. Ele sorri. Aquele sorriso encorajador de avô. Volto a olhar pra examinadora número 2 que me pergunta sobre undercover journalism (quando o jornalista usa um disfarce pra tentar conseguir a informação de que precisa) e me pede um exemplo na Alemanha. Só me lembro que o nome do cara era Günter e digo Günter Grass (também alemão, mas escritor, não jornalista – descubro depois). Ela me corrige – Günter Wallraff – e mais anotações.

Mil perguntas cabulosas nada a ver com o meu trabalho depois, saio da sala pra eles discutirem a minha nota.

Examinador número 1 me chama sorridente e me diz: Frau Silva, sua nota (baseada no trabalho e na prova oral) é um 2,0 – ou seja, um bom, acima da média, mas não muito bom (1,7) ou ótimo (1,3 ou 1,0 – nota máxima). Examinadora número 2 me mostra meu trabalho, todo rabiscado em vermelho e me diz:

1) se nenhum dos meus outros títulos tem verbo, a senhora não pode decidir colocar um verbo em um específico (?!!);

2) pra quê itálico no nome do livro na referência bibliográfica?;

3) Se seu trabalho foi escrito em inglês você tem que usar “ibid” e não “ebenda” na nota de rodapé;

4) nesse parágrafo faltou a referência. Ao que respondo: essa é uma frase totalmente minha. Ela argumenta: como assim? Eu respondo: ué, common knowledge, wikipedia é uma enciclopédia escrita coletivamente. Ela contra-argumenta: mas deve ter uma explicação similar em algum livro. Se você não citar a fonte, vai parecer plágio. Eu: :-/ (proibido ter ideias próprias. okay. entendido.)

Elogios ao meu rico trabalhinho? Imagina! Quem sabe numa próxima vida.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s