O desafio de viver com 24 outras culturas

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Desde que cheguei a Bonn o meu maior desafio não tem sido me adaptar à cultura alemã, ao frio ou à culinária local. Queria que as minhas maiores dificuldades fossem me expressar em alemão, entender o sistema de transportes, obedecer todas as mil regras e empacotar as compras do supermercado em tempo recorde no caixa, porque pelo menos estaria lidando com uma única cultura, uma mesma lógica.

Ter colegas de 24 países diferentes é super legal em festas, viagens e em fotos. Conviver DIARIAMENTE com 24 culturas diferentes é outro papo.

No começo tudo é fantástico e enriquecedor. Depois de 3 meses, a lua de mel acaba e os conflitos começam. Como lidar com aquele seu colega que arrota várias vezes durante o almoço na sua frente porque na cultura dele isso é um elogio? Como entender o camarada que leva 5 minutos pra fazer uma única pergunta em sala de aula porque só organiza o pensamento e formula a pergunta que quer fazer quando já está falando? Como entender a fulana que chega 2 horas atrasada na aula ainda com um cafezinho na mão na maior tranquilidade? Como entender a colega que mora no mesmo prédio e andar que você mas que não compartilha nada da vida dela e tem sempre desculpas esquisitas quando recebe qualquer convite de socialização? Como entender o colega que, apesar de falar alemão mais perfeito que um alemão nativo, te responde sempre em inglês quando você inicia uma conversa em alemão e não desiste enquanto você não muda pro inglês também?

Parece óbvio, mas entender por que a pessoa X age e pensa totalmente diferente de você e aceitar a diferença de verdade a ponto de conviver com ela não é tarefa fácil. Sim, porque no fundo a gente espera que as pessoas sejam mais ou menos como a gente e tem dificuldades em aceitar opiniões e atitudes totalmente estranhas e contrárias às nossas.

As aulas de comunicação intercultural do mestrado têm me ajudado muito a lidar com todas essas diferenças, mas nesse processo estou descobrindo que o meu maior desafio é (quem diria), vencer a mim mesma, que me achava flexível e sem preconceitos, mas que no fundo espero que as pessoas ajam e pensem como eu.

Tenho a impressão de que esse será um longo caminho, mas acho que a jornada me tornará uma pessoa melhor.

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2 responses »

  1. Acho que, antes de tudo, todos deveriam tentar se adaptar (mesmo que minimamente) aos padrões da Alemanha. Não que seja imposição alguma ou menosprezo pela cultura/país de cada um, mas o barato do intercâmbio é justamente aprender a conviver em uma nova cultura. Quando morei em Munique, estando em contato com vários outros brasileiros, tentei várias vezes em vão tentar dar pequenos conselhos (pela experiência prévia que tive em Freiburg), mas que muitos, por ingenuidade ou qualquer outra coisa, não entendiam ou simplesmente ignoravam. Seja desde o não ‘falar’ gritando dentro do metrô (todos os alemães sempre ficavam olhando com cara de poucos amigos, oviamente), não ficar no lado de passagem da escada rolante, de se esforçar para aprender e praticar um pouco mais do alemão, evitar ser “schwarzfahrer”… enfim… percebi que estava sendo o chato da história.
    Resumindo: tudo isso com pessoas da ‘minha própria cultura’! O teu desafio é “árduo”, Karen, mas acho que com o tempo o próprio “German way of life” irá se impor sobre essas diferenças. Pelo menos é o que espero…
    LG!

  2. Difícil missão, me mudei da cidade onde morei pela primeira vez aqui porque a variedade de etnia realmente causa conflitos e situações das quais eu não queria mais presenciar. Na escola da bia também com muita criança mal educada e mães ainda piores. Daí já não é mais uma questão de ser flexível e sem preconceitos, não dá para aceitar algumas coisas de maneira nenhuma só porque na cultura de alguns essas coisas são consideradas normais..

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